História dos Farois

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Visão além do alcance

Das lâmpadas de acetileno às de xenônio com facho
autodirecional, os faróis passaram por grande evolução

Quem viaja à noite em um automóvel moderno, sobretudo os dotados de lâmpadas de xenônio, pode se perguntar: o que seria dos motoristas se não existissem os faróis? De fato, estamos habituados de tal forma a enxergar bem nas viagens noturnas que fica difícil imaginar como já foi precário circular de carro depois do pôr-do-sol. Esses sistemas de iluminação surgiram quase ao mesmo tempo que o próprio automóvel. Foi na década de 1880 — a mesma da apresentação do pioneiro Benz Patent-Motorwagen — que começaram a ser usados faróis com óleo ou acetileno, estes mais populares por sua resistência ao vento e à chuva. Lâmpadas elétricas viriam só em 1898 como opcionais no Columbia Electric Car, fabricado pela Electric Vehicle Company nos Estados Unidos. Mas a dificuldade de produzir dínamos pequenos e potentes o suficiente, associada à curta vida útil dos filamentos, fez com que esse tipo de lâmpada demorasse a se consagrar.

Ainda na primeira metade do século passado, diversas evoluções tornaram os faróis mais eficientes. Os fachos alto e baixo apareceram em 1915 e, dois anos depois, a Cadillac adotou um comando interno para essa seleção, sem que o motorista precisasse descer do carro. Em 1924 a lâmpada Bilux trouxe ambos os fachos na mesma peça. A Cadillac também introduziu faróis de neblina, em 1938; um sistema automático para baixar o facho quando detectasse outro carro em sentido contrário, em 1952; e um mecanismo para acender e apagar as luzes conforme a luminosidade ambiente, em 1964.

Mundos separados  

Os EUA lançaram em 1940 os faróis do tipo selado (sealed beam, cuja pronúncia aproximada "silibim" tornou-se popular no Brasil), em que refletor, lâmpada e lente vinham integrados de maneira a não se separar. Além da vantagem natural de proteção contra poeira e umidade, esse tipo tinha fácil alinhamento do facho e tendia a mantê-lo por muito tempo. Por outro lado, em caso de queima da lâmpada todo o conjunto tinha de ser trocado.

Os americanos logo tornaram obrigatório esse padrão, de início com formato circular e diâmetro de sete polegadas (178 mm), mais tarde com permissão à forma retangular e do uso de dois circulares menores em cada lado. Já na Europa os faróis selados nunca foram populares, os retangulares apareceram em 1961 e as lâmpadas de halogênio (com filamentos incandescentes), lançadas um ano depois, tiveram grande aceitação — mas estiveram proibidas nos EUA até 1978. Isso levou a uma separação entre os Estados Unidos e o resto do mundo. Por décadas, fabricantes europeus precisaram modificar os faróis e até o desenho da frente para exportar seus carros à América, que exigiu o sistema selado até 1983. Mesmo as lentes do tipo carenagem estiveram proibidas no mercado americano. Por outro lado, mecanismos que mantinham os faróis ocultos quando apagados eram permitidos. Hoje não há diferenças nas regras sobre formato e tipo de lâmpada, mas ainda existem padrões seguidos nos EUA e em outros mercados. A Comunidade Européia estabelece o facho baixo do tipo assimétrico, em que no lado direito há maior alcance — ou o contrário em países com direção pela esquerda da via, caso da Inglaterra.

A diferença entre os lados, que busca aumentar a iluminação no lado em que se circula e reduzir o ofuscamento de motoristas do sentido oposto, é obtida pelo desenho das estrias da lente ou dos prismas do refletor. A legislação americana, porém, não faz tal exigência e por isso são vendidos lá modelos com faróis simétricos, de mesmo alcance nos dois lados (incluindo carros que vêm ao Brasil, como Ford Fusion e Nissan Sentra). E como fazem os ingleses quando dirigem seus carros no continente e vice-versa? A norma exige que façam ajuste nos faróis para evitar o ofuscamento, seja pela regulagem manual, seja por meio de coberturas sobre a lente. No caso de importação permanente para o país com circulação inversa, porém, os faróis devem ser corrigidos de forma definitiva, o que em muitos casos requer sua substituição.

Novas tecnologias   Nas últimas décadas, várias novidades trouxeram mais eficiência e durabilidade aos faróis. Conjuntos duplos já existiam na década de 1950 nos EUA, em geral com fachos baixo e alto em um farol e apenas facho alto no outro. Nos anos 80 começou o desenvolvimento dos refletores de superfície complexa. Se antes as estrias da lente eram responsáveis por direcionar o facho, o novo sistema pôs essa tarefa a cargo do próprio refletor, sendo usada então uma lente lisa. O Honda Accord de 1990 foi um dos pioneiros nessa tecnologia, que estreou na produção brasileira em 1997 com o Ka. Vale notar que, ao contrário do que muitos acreditam, o sistema de superfície complexa não tem relação com o uso de policarbonato (tipo de plástico transparente) na lente
que é bastante comum hoje por seu baixo peso, menor custo, boa resistência e segurança em caso de quebra, já que não produz cacos de vidro. Há faróis de superfície complexa com lente de vidro e outros de refletor convencional com lente de policarbonato.

Outro avanço na questão de direcionar o facho com precisão foi o refletor elipsoidal, nome que indica a forma baseada em elipses. Esse refletor, bem menor que os convencionais, conta com numerosos prismas para organizar o facho de luz e uma lente (em geral com forma convexa vista de fora) à frente da lâmpada, além da lente de cobertura que compõe o desenho externo do farol. O resultado é excelente definição de facho e de seu corte superior em posição baixa, além da liberdade de estilo trazida pelas menores dimensões. O BMW Série 7 de 1986 foi o primeiro a usar o recurso em âmbito mundial, e o Marea de 1998, o pioneiro entre os nacionais.

Já o direcionamento do refletor para iluminar melhor em curvas é uma idéia antiga, inaugurada na década de 1930 pela Tatra, da antiga Checoslováquia, e — sempre ela — pela Cadillac. O americano Tucker, de 1948, tinha um terceiro farol no centro com essa finalidade e, na França, a Citroën produziu por anos o DS e o SM com faróis direcionais. Proibido em alguns países, o recurso só reapareceu em 2002, agora com sensores e atuadores elétricos no lugar dos antigos sistemas mecânicos. Em geral associado a lâmpadas de xenônio (embora possa vir com as halógenas, como no novo Focus para o mercado argentino), o facho autodirecional move-se em ângulo que depende, além da própria curva, da velocidade do carro.

As lâmpadas  

As próprias lâmpadas também evoluíram. Até a década de 1980 era comum o filamento de tungstênio, com limitações como a baixa produção de luz em relação a seu consumo de energia e a tendência a liberar esse tungstênio, que então se fixava ao interior do bulbo e o escurecia. Com as lâmpadas de halogênio (ou de "iodo"), a produção de luz por watt consumido aumentou e o escurecimento foi eliminado.

Ela ainda equipa todos os carros que não passaram à lâmpada de xenônio. Também chamada de lâmpada de descarga de alta intensidade (HID na sigla em inglês), essa moderna tecnologia consiste no uso de um arco elétrico para produzir luz e no preenchimento da lâmpada pelo gás xenônio, que lhe dá o nome (xenon em inglês). Além de fornecer luz muito branca, é bem mais eficiente: produz em geral de 2.800 a 3.500 lúmenes com a potência elétrica de 35 a 38 watts, enquanto a de halogênio obtém de 700 a 2.100 lúmenes com consumo entre 40 e 72 watts. Tal eficiência permite ao fabricante usar faróis mais compactos sem perda em iluminação, o que também traz liberdade para novos padrões de desenho.

Outra vantagem da HID é a chamada temperatura de cor, acima de 4.000 K, portanto mais próxima da obtida pela luz solar (6.500 K) que a das lâmpadas de halogênio (3.000 a 3.500 K). Essas lâmpadas apareceram em 1991, também no Série 7 da BMW, e já têm vasto uso nos países de vanguarda em carros a partir da categoria média. De início foram adotadas apenas no facho baixo, sendo mantidas as de halogênio para o alto, pois o acendimento do xenônio era lento demais para a função de relampejador. Resolvida essa questão, hoje muitos carros as empregam em ambos os fachos, o que é conhecido por bi-xenônio. A primazia coube ao Mercedes-Benz CL de 2000.

Por sua intensidade de luz, a legislação européia requer o uso de corretor automático de altura do facho (que o ajusta em função da inclinação da pista, do movimento da carroceria e do rebaixamento da traseira pelo peso transportado) e de sistema de limpeza (em geral por jato d'água de alta pressão), a fim de reduzir o risco de causar ofuscamento. Mesmo em países que não fazem tais exigências, adaptar lâmpadas de xenônio a um farol não projetado para elas resulta em facho mal direcionado e iluminação excessiva, com forte tendência a ofuscar.

É importante não confundir essas lâmpadas com aquelas de halogênio de coloração mais branca ou azulada, não raro com maior potência, adaptáveis a faróis comuns. Muitos proprietários recorrem a tais acessórios por motivo estético ou buscando melhor iluminação, que nem sempre é obtida. Além do risco de ofuscamento, a lâmpada com potência superior à original pode sobrecarregar o sistema elétrico.

Ainda raro, mas com tendência a ganhar espaço, é o uso de diodos emissores de luz (LEDs, também sigla em inglês) em faróis. Bastante compactos, esses diodos são empregados em grande quantidade para fazer o papel de uma só lâmpada, o que confere aspecto futurista ao carro e traz grande liberdade de desenho. Sua iluminação fica no meio-termo entre as lâmpadas de xenônio e as de halogênio, com consumo de energia pouco maior que o destas últimas. O Audi R8 oferece faróis de LEDs como opção, mas o fabricante alemão já usa em quase toda sua linha esse recurso em uma faixa junto aos faróis destinada à luz diurna, obrigatória em alguns países. LEDs também já aparecem nas lanternas traseiras de muitos modelos, tendo sido o Maserati 3200 GT de 1998 o pioneiro.

Mesmo que as últimas novidades em iluminação demorem a chegar aos automóveis mais acessíveis, o progresso nesse campo é inegável e tem benefícios diretos na segurança do tráfego noturno. Quando se trata de faróis, não existem "bons e velhos tempos": quando mais modernos, melhor.

Última atualização ( Qua, 01 de Julho de 2009 20:58 )  

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